
Eu me considero uma pessoa racional. Pelo menos até a hora em que preciso muito de alguma coisa. Aí minha racionalidade começa a apresentar rachaduras. Se a situação aperta, sou capaz de conversar com santo, fazer promessa, bater três vezes na madeira e desconfiar de uma borboleta que entrou pela janela. Acho que não sou exceção. O brasileiro pode ser ateu, agnóstico, católico, evangélico, espírita ou simplesmente indiferente. Mas, no fundo, quase todo mundo tem um pé no invisível. É fato: a gente negocia com o outro lado.
Quem nunca tentou fazer negócio? Tipo:
— Se eu conseguir esse emprego, acendo uma vela.
É uma operação comercial com o Além. Eu ofereço a vela, o santo providencia o emprego. Há quem prometa subir escadarias de joelhos, abandonar o chocolate, parar de fumar. Sempre achei curioso prometer justamente aquilo que mais dói. Ninguém diz:
— Se meu filho passar no vestibular, prometo tomar sorvete durante uma semana.
Não. Milagre exige sacrifício.
“Gostamos da ideia de que, quando tudo parece perdido, uma porta invisível possa se abrir”
Conheço pessoas absolutamente céticas que, diante de uma turbulência no avião, descobrem uma fé instantânea. O sujeito passou a vida dizendo que Deus é uma invenção humana. O avião dá uma sacudida e ele imediatamente pensa:
— Meu Deus!
Não pensa em Newton.
Também somos especialistas em pequenos rituais. Tem gente que não passa debaixo de escada, não deixa bolsa no chão, foge de gato preto e considera sexta-feira 13 uma data que merece cautela. Outros usam fitinha, figa, olho grego, cristal. Há os que tomam banho de sal grosso. Aliás, o sal grosso brasileiro deve ter uma atividade espiritual muito maior que sua função culinária.
Eu mesmo já ouvi frases extraordinárias, como:
— Não acredito nessas coisas, mas não custa fazer.
Talvez venha daí nossa paixão por milagres. Gostamos da ideia de que, quando tudo parece perdido, uma porta invisível possa se abrir. Às vezes acontece algo extraordinário. Outras, não. Mas a esperança já cumpriu seu papel: ajudou a atravessar a noite.
Há ainda quem converse diretamente com quem já partiu. Pede proteção ao pai, conselho à mãe, ajuda à tia. É uma espécie de WhatsApp metafísico, sem confirmação de leitura.
Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017
🔗 Ver fonte
Comentários
Postar um comentário