
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, apostou em uma manobra arriscada ao antecipar as eleições gerais para 29 de novembro. O pleito, até então, estava previsto para apenas para meados de 2027. O anúncio na segunda-feira 5 ocorre após uma nova revés parlamentar do governo esquerdista, pressionado pela crise de moradia que assola o país e levou milhares de pessoas às ruas no último fim de semana.
“Decidi convocar um Conselho de Ministras e Ministros extraordinário ainda nesta manhã para dissolver as Cortes Gerais e convocar eleições gerais”, indicou Sánchez em uma mensagem no Palácio de Moncloa, sede da Presidência do Governo em Madri.
“Para fazer mais, precisamos renovar e ampliar o apoio das pessoas”, afirmou, antes de assinalar que, para realizar as reformas pendentes e reduzir os níveis de desigualdade, precisa de “uma maioria muito mais ampla, progressista” no Parlamento.
O desgaste do premiê foi agravado após o Congresso rejeitar dois decretos voltados para a crise de habitação, que incluíam a suspensão de despejos de inquilinos vulneráveis até 2030, renovação automática dos contratos de aluguel para proteger os locatários contra altas abusivas e regulação mais rigorosa sobre os aluguéis de temporada e de curta duração. O governo Sánchez enfrenta um parlamento fragmentado, no qual não conseguiu obter maioria absoluta, impedindo que reformas-chave propostas pelo Executivo sejam aprovadas.
As medidas eram a última esperança de Sánchez para conter a onda de protestos, desencadeada após o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos. A idosa ser retirada à força de um apartamento em que viveu durante sete décadas, depois que o imóvel foi adquirido por uma empresa de investimento que pretendia aumentar o aluguel em 275%, para 2.650 euros (cerca de R$ 15,7 mil). Embora um acordo tenha sido firmado com a imobiliária para permitir que Abascal retornasse para casa, o movimento seguiu adiante — e não mostra sinais de arrefecimento.
Para além da turbulência relacionada à moradia, Sánchez teve de lidar com um escândalo dentro de casa. Sua mulher, Begoña Gómez, é acusada de registrar um software voltado à gestão de pequenas empresas no nome de uma empresa da qual é sócia enquanto ocupava o posto de professora da Universidade Complutense de Madri e chefe do departamento de inovação social. As acusações de corrupção e apropriação indébita foram descartadas, mas restaram as suspeitas de tráfico de influência e malversação de recursos públicos.
Pesquisas mais recentes sobre intenção de voto colocam o conservador Partido Popular (PP), principal força da oposição, à frente dos socialistas. No entanto, também ficariam sem maioria absoluta segundo as projeções, cenário que obrigaria a legenda a buscar apoios para governar. A extrema direita do Vox, terceira força política, desponta como um dos atores-chave.
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