
O filho do ex-presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, o AMLO, que governou o país de 2018 a 2024, denunciou, na quinta-feira 13, que o governo dos Estados Unidos revogou seu visto para entrar no país sem “nenhuma razão”.
Também político, Andrés Manuel López Beltrán chamou a medida “hitleriana” de um ato politicamente motivado em uma carta dirigida ao presidente Donald Trump e divulgada em sua conta no Instagram.
“Não me causa nenhum problema não visitar os Estados Unidos nestes tempos decadentes e lamentáveis de ódio, racismo, uso de drogas, desintegração familiar, inconformidade social e tristeza”, escreveu ele.
López Beltrán foi até maio o número dois do partido governista Morena e será candidato a deputado federal pelo estado de Tabasco nas eleições intermediárias de 2027.
‘Atitudes sectárias’
O filho do ex-mandatário acusou Marco Rubio, secretário de Estado americano, e seu subsecretário, Christopher Landau, de terem “ordenado” a retirada de seu visto sem que exista, segundo ele, qualquer prova para adotar a decisão. De acordo com ele, os dois agem como “chefes de gangues dedicados a espionar, assediar, interferir e atacar outros países, governos e políticos que consideram ‘comunistas’, ‘ameaças à segurança dos Estados Unidos’, ‘narcoterroristas’ ou qualquer outra desculpa”.
“O senhor está a par do que estou expondo?”, questiona López Beltrán a Trump, a quem recomenda inclusive destituir Rubio e Landau por estarem “cheios de ressentimentos e de atitudes sectárias”.
López Beltrán não explica como foi informado da decisão de Washington. Ele afirmou que não há provas que o liguem a “algum ato imoral ou criminoso” e atribui a retirada do visto a uma “doentia fobia conservadora” contra o partido Morena, fundado por seu pai e que governa o México desde 2018 (hoje, sob a batuta da presidente Claudia Sheinbaum).
O político de esquerda pede a Trump o início de uma “nova etapa” em que apoie “profissionais da política”.
Revogação de vistos
Segundo a imprensa mexicana, os Estados Unidos teriam revogado o visto de quase 50 políticos do governo, em particular por supostos vínculos com o crime organizado. Apenas algumas pessoas reconheceram publicamente a sanção.
Um levantamento divulgado nesta semana revelou que o Departamento de Estado americano cancelou mais de 175 mil vistos desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, quadruplicando o ritmo de revogações registrado no último ano de mandato do ex-presidente Joe Biden.
Outro filho de López Obrador, José Ramón, vive em uma área exclusiva de Houston, informaram jornais mexicanos.
Leia a carta na íntegra:
Teapa, Tabasco, 13 de agosto de 2026
Donald Trump
Presidente dos Estados Unidos da América
Presente
Escrevo-lhe com o respeito que merece, tanto pessoalmente quanto em virtude de sua posição, para informá-lo de que Marco Rubio, Secretário de Estado, e Christopher Landau, Subsecretário de Estado, que se autodenomina “o ladrão de vistos”, ordenaram a revogação do meu visto de entrada nos Estados Unidos da América. Claramente, essa decisão é politicamente motivada, ou melhor, politicamente motivada e propagandística, ao estilo hitlerista, pois não há qualquer justificativa para tal comportamento arrogante. Vale ressaltar que esses funcionários não possuem provas contra mim a respeito de qualquer ato imoral ou criminoso, pois sempre conduzi minha vida pública e privada pelos ideais, princípios e honestidade que me foram incutidos por meus pais e que pratico com convicção em meu trabalho político.
Na realidade, a revogação do meu visto nada mais é do que um ato vil e perverso desses funcionários e outros falcões que, a rigor, não são diplomatas nem políticos, já que eles e seus aliados agem como chefes de gangues dedicados a espionar, assediar, interferir e atacar outros países, governos e políticos que consideram “comunistas”, “ameaças à segurança dos Estados Unidos”, “narcoterroristas” ou qualquer outra desculpa para tentar justificar as suas represálias contra aqueles que não se alinham ou não se submetem às suas ambições autoritárias e facciosas e às suas práticas corruptas. Afirmo isso porque é de conhecimento geral que a maioria dessas figuras se caracteriza por receber dinheiro para suas campanhas ou atividades políticas de traficantes de armas ou como pagamento por tráfico de influência, conhecido como lobby, em nome de poderosas máfias econômicas nos Estados Unidos, governos ditatoriais e empresários estrangeiros corruptos.
Claro, Sr. Presidente, não me causa nenhum problema não visitar os Estados Unidos nestes tempos decadentes e lamentáveis de ódio, racismo, dependência de drogas, desintegração familiar, agitação social e tristeza, e posso esperar que as coisas mudem e que existam circunstâncias favoráveis como quando Abraham Lincoln e Franklin Delano Roosevelt governavam, esses gigantes da liberdade que trataram o México e seu povo com genuína amizade e respeito por sua soberania.
Gostaria, no entanto, de saber sua opinião sobre o meu caso e espero que não a interprete como um desafio, mas acredito que seria de grande ética e de interesse público que, com a sua franqueza característica, respondesse a pelo menos duas perguntas simples: O senhor está ciente do que estou lhe dizendo? E, se estiver, não considera isso um ato de arrogância da sua parte, demonstrando, como meu pai escreveu recentemente, que o senhor é um líder apático e diferente daquele que ele conheceu e com quem conviveu? E, se o senhor não estiver ciente, Sr. Presidente, e não houver motivo para tirar meu visto, tratando-se simplesmente de uma fobia doentia e conservadora contra o Movimento de Regeneração Nacional (Morena) e seus líderes, por que não demite Rubio e Landau, assim como outros como eles que o prejudicam por estarem cheios de ressentimento e sectarismo? Ou não é óbvio que eles agem como líderes de uma panelinha e não como estadistas? Presidente Trump, ainda há tempo para o senhor começar um novo capítulo, apoiado por profissionais da política, homens e mulheres leais que sempre colocam os interesses dos cidadãos acima dos seus próprios, por mais legítimos que sejam, e buscam o bem da nação. Na política, é sempre melhor corrigir o rumo do que se acomodar, e é sábio mudar de ideia.
Aguardo sua resposta para que também saibamos o que esperar, o que é sempre bem-vindo, pois a hipocrisia não pode ser a doutrina que guia a nobre profissão da política, especialmente quando se trata da relação entre povos e nações amigas com dignidade.
Saudações,
Andrés Manuel López Beltrán.
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