
Um pouco comum desentendimento ganhou as redes socais do mundo econômico nesta semana: uma discussão entre o economista turco-americano Daron Acemoglu, professor do MIT e um dos vencedores do Prêmio Nobel de 2024, e a revista britânica The Economist, umas das principais publicações de economia, negócios e política do mundo. A bravata até rendeu um direito de resposta, na forma de uma carta aberta assinada por Acemoglu e publicada no site da revista nesta sexta-feira.
A história começa alguns dias antes. “Eu não estou feliz com o artigo da Economist, que parece uma matéria difamatória”, escreveu Acemoglu na noite da terça-feira, 18, para os seus 370.000 seguidores no X. “Há também um pano de fundo para isso, que é ainda mais preocupante (e que eu devo mencionar em algum momento). Eu pedi a eles um direito de resposta. Estou esperando um retorno.”
Acemoglu recebeu o Nobel ao lado de seus dois colegas de pesquisas, Simon Johnson e James Robinson, por conta de uma série de artigos que assinaram juntos no início do anos 2000 investigando o papel das instituições para o crescimento e o nível da riqueza das nações.
Fizeram isso por meio de um trabalho no mínimo criativo em que demonstram por meio de ferramentas matemáticas como a colonização europeia, no século 16, alterou de maneiras diferentes as instituições dos países dominados e tem profunda correlação com os discrepantes graus de desenvolvimento entre eles atualmente.
O trio foi um dos pioneiros e se tornou referência neste que é um dos mais jovens e aquecidos nichos da economia que procuram explicar por que algumas nações prosperam e outras não.
O que afirmou a revista
Em sua publicação, Acemoglu não chegou a dizer qual foi a referida matéria da Economist ou a compartilhar seu link, mas não é difícil encontrá-la e também demorou muito pouco para que ela aparecesse entre os mais de 300 comentários que a publicação recebeu – a maior parte delas em apoio ao Nobel.
I am not happy about the Economist’s article, which feels like a hit piece. There is also a background to it, which is more troubling (as I will share at some point). I asked them to allow me to respond. I am waiting for their answer. If not in the magazine, I will share my…
— Daron Acemoglu (@DAcemogluMIT) August 18, 2026
Imagem fora do domínio Abril
Em uma reportagem publicada em seu site um dia antes, na segunda, 17, a Economist contesta a ampla fama que Acemoglu, que também é autor de best sellers como “Por que as Nações Fracassam”, acabou consolidado dentro e fora do ciclo econômico. Citando entrevistas de um punhado de economistas, a reportagem chama a teoria que rendeu a Acemoglu o maior prêmio da economia e das ciências de “pouco convincente” e “pouco confiável”, afirma que há furos nos dados usados e defende que há uma desproporcionalidade entre a popularidade do pesquisador e a seriedade de seus estudos.
“Acemoglu, de apenas 58 anos, já há algum tempo é o colosso da disciplina (…), mas dê alguns drinks a alguns economistas e alguns deles vão se aventurar a dar a sua verdadeira opinião sobre este gigante”, diz o texto.
“Sua grande tese pode, em verdade, não revelar muita coisa”, afirma a Economist. “As nações prosperam quanto as instituições são boas e estagnam quando são ruins. É verdade. Mas o que exatamente é uma instituição?”. Em outro trecho, acrescenta: “As mudanças institucionais que [seus livros] descrevem só poderiam ocorrer a partir de outra mudança institucional, fazendo com o que argumento central regrida eternamente.”
A Economist também menciona falhas nas pesquisas mais recentes de Acemoglu, ligadas á inteligência artificial – tema de que, se não é um crítico, o economista no mínimo não é um entusiasta. Ativos em entrevistas e artigos sobre o tema, além de seus vários estudos a respeito, Acemoglu defende que o impacto da IA sobre a produtividade e a economia estão superestimados e não devem ser tão grandes quanto se imagina.
A resposta do Nobel
O criticado chegou a ser convidado a comentar as críticas e também aparece brevemente citado na reportagem original, mas, ao que parece, não julgou os trechos utilizados o suficiente.
Na nova carta que teve a oportunidade de divulgar nas páginas da Economist, Acemoglu não perde a oportunidade de também alfinetar a publicação, afirma que ela não conseguiu mencionar críticas de fato relevantes sobre seu trabalho e, ainda, sugere que suas críticas recentes à inteligência artificial e, também, à crise do liberalismo econômico, um dos seculares estandartes da revista britânica, devem estar entre as razões que a levaram aos ataques.
“O momento [da reportagem] é curioso, coincidindo com a publicação do meu novo livro, ‘O que aconteceu com a democracia liberal?'”, escreveu Acemoglu. O livro, lançado neste mês e ainda inédito no Brasil, conforme descreve próprio autor, é um estudo do sucesso do liberalismo no passado, sua crise atual e do que poderia ser feito para reaviva-lo.
“Uma visão crítica do meu trabalho e suas principais ideias é bem-vinda e essencial para o progresso científico, mas, no lugar disso, este artigo reúne queixas de uma maneira vaga para insinuar que um trabalho acadêmico não seja confiável”, afirma. “Se este é o melhor que vocês podem fazer a respeito de um trabalho que perdura há mais de 33 anos, então é a sua crítica que é ‘estranhamente pouco convincente'”, conclui.
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