Quanto vale uma medalha de ouro conquistada em um concurso de vinho



Durante três dias de junho, no papel de uma das avaliadoras convidadas para o Brazil Wine Challenge, desconfiei até da cor das garrafas. Em uma sala iluminada apenas o suficiente para revelar o vinho na taça, 91 jurados de nove países tinham uma única missão: esquecer rótulos, preços, fama e origem. Na minha mesa passaram cerca de 120 vinhos. Nenhum deles tinha nome. Eram apenas números.

É justamente esse anonimato que faz do Brazil Wine Challenge o único concurso brasileiro reconhecido pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). E explica por que uma medalha conquistada em Bento Gonçalves pode ter o mesmo peso para um importador que uma consagração em Paris, Nova York ou Tóquio.

Durante décadas, o Brasil enviou seus vinhos para serem julgados no exterior. Na mais recente edição do Brazil Wine Challenge, o movimento aconteceu no sentido inverso. Foram 1.127 amostras provenientes de 19 países, avaliadas por especialistas de nove nacionalidades. É a maior edição da história do concurso organizado pela Associação Brasileira de Enologia (ABE).

Uma das especialistas que ao meu lado nas degustações era a uruguaia Gabriela Zimmer, uma das profissionais mais respeitadas da crítica sul-americana. Engenheira química de formação e sommelière, integra a equipe de Tim Atkin e hoje é responsável pela avaliação dos vinhos brasileiros no aguardado relatório anual desse conceituado crítico inglês. Antes de assumir essa missão, Gabriela passou anos degustando ao lado dele, calibrando o paladar e comparando notas até conquistar sua confiança. Entre uma bateria e outra de degustações em Bento Gonçalves, ela resumiu o momento vivido pelo país: “O Brasil ainda é visto como exótico no mundo do vinho, mas cresce numa velocidade impressionante. Não deve demorar para atrair muito mais atenção internacional”.

Mulher de cabelos castanhos, vestindo blazer cinza e lenço estampado, cheira um copo de vinho tinto com expressão concentrada, em um ambiente interno com fundo bege
A jurada Gabriela Zimmer: “O Brasil é visto ainda como um produtor exótico”Jeferson Soldi/Divulgação/VEJA
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Em meio às provas, era curioso perceber como o mapa do vinho mudava a cada voo da taça. Num momento, um branco da Moldávia. Logo depois, um espumante russo. Em seguida, um tinto brasileiro produzido pela técnica da dupla poda. Sem rótulos, desapareciam também os preconceitos. Restava apenas o vinho.

Antes de cada bateria, recebíamos apenas informações básicas: categoria, safra e um número. Nem mesmo a cor do vidro da garrafa podia sugerir qualquer pista. O anonimato é absoluto. Afinal, um dos princípios da OIV é justamente impedir que fama, preço ou origem influenciem o julgamento.

Garrafas de vinho cobertas com sacos pretos e numeradas, alinhadas em uma mesa metálica com formulários e canetas para degustação às cegas
As garrafas entregue aos avaliadores: sem qualquer pista sobre a procedênciaJeferson Soldi/Divulgação/VEJA
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Foi curioso observar, por exemplo, a reação do enólogo francês Philippe Mével, da Chandon Brasil, diante de alguns vinhos doces e de colheita tardia. Em determinados momentos ele levantava discretamente as sobrancelhas, intrigado com a qualidade de exemplares que certamente não imaginava de onde vinham.

Existe apenas um momento em que o silêncio é interrompido. Quando a média de uma amostra ultrapassa 94 pontos, o presidente da mesa anuncia: “Grande Ouro”. As cinco pessoas da mesa batem palmas quase automaticamente. Em momentos distintos, outras mesas repetem o gesto e o salão inteiro vibra. Ninguém sabe qual vinho acabou de ser premiado. Apenas que, em algum lugar daquela sala, uma garrafa extraordinária acaba de nascer para o mercado.

Na minha mesa, presidida pelo enólogo Ricardo Morari, da Cooperativa Vinícola Garibaldi, passaram cerca de quarenta vinhos por manhã. Cada amostra é avaliada uma única vez por um único júri, formado por quatro degustadores e um presidente de mesa. Há sempre uma segunda garrafa disponível para o caso de defeito de rolha ou necessidade de confirmação. Durante os três dias tivemos apenas uma desclassificação. Um tinto da safra 2015 cuja expectativa literalmente foi para o vinagre. A acidez volátil excessiva encerrou precocemente sua participação. Para Ricardo Morari, isso revela uma mudança importante: “Hoje, qualidade já não é mais um diferencial. Ela virou pré-requisito”.

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Nos bastidores do evento, uma engrenagem quase invisível movimentava mais de 5.600 taças, servidas rigorosamente na temperatura correta, identificadas apenas por códigos e sincronizadas com precisão quase cirúrgica. Mesmo jurados acostumados a concursos internacionais comentavam a eficiência da operação.

Ao final das degustações, foram distribuídas 375 medalhas. O Brasil conquistou 241 delas, sendo 28 Grandes Ouros. Para Mário Lucas Ieggli, presidente da Associação Brasileira de Enologia, talvez o maior vencedor seja o consumidor: “Quando alguém encontra a medalha de um concurso sério, ganha um atalho. É a certeza de que aquele vinho já foi colocado à prova por especialistas, em degustações às cegas, sem que ninguém soubesse o rótulo, o produtor ou o preço da garrafa.” Segundo ele, é justamente esse rigor que faz da medalha uma referência internacional. “O único protagonista é o vinho que está na taça”, completa.

O impacto vai além do diploma entregue na cerimônia de premiação. Como consultor de diversas vinícolas brasileiras, Mário diz acompanhar de perto o efeito da medalha no mercado. Ela acelera vendas, fortalece marcas e ajuda consumidores a escolher entre milhares de rótulos disponíveis.

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Ao mesmo tempo, ele observa uma transformação silenciosa no mapa do vinho brasileiro. “Hoje não é apenas o Sul que produz grandes vinhos. Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste crescem em número de projetos e em qualidade’, diz o especialista, referindo-se à participação crescente dos vinhos de colheita de inverno.

Nos espumantes, a convicção do presidente da ABE é ainda maior: “Estamos entre os melhores do mundo. E ‘espumante’ é o nosso nome. “Essa é a identidade do Brasil”. Essa opinião foi compartilhada por jurados estrangeiros, como Manuel Capote, espanhol da Ilha das Canárias, especialista em viticultura heroica. Durante uma noite de confraternização, Capote levantou um brinde ao espumante brasileiro e afirmou que por mais anos que tenham historicamente na frente, a Espanha nunca seria capaz de produzir algo com aquela qualidade. Talvez seja exatamente disso que trate o Brazil Wine Challenge. Mais do que distribuir medalhas, ele mede o momento de maturidade do vinho brasileiro.

Durante muito tempo fomos ao exterior em busca de reconhecimento. Agora, produtores do mundo inteiro enviam seus vinhos para serem avaliados aqui. No fim das contas, aquela pequena medalha dourada presa ao gargalo de uma garrafa talvez diga muito mais do que parece. Ela informa que aquele vinho sobreviveu ao julgamento mais difícil de todos: o das taças anônimas.

E, quando essa medalha nasce em Bento Gonçalves sob as regras da OIV, ela passa a falar uma língua compreendida tanto na Serra Gaúcha quanto em Paris, Nova York ou Tóquio.

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