
Durante décadas, vinho branco foi tratado como coadjuvante. Era o vinho da piscina, do peixe grelhado, do verão. Servido bem gelado, bebido jovem e quase sempre considerado menos complexo do que um grande tinto. O mundo mudou. E, com ele, mudaram também as cores nas taças. Hoje, quase metade da produção mundial já é de vinhos brancos e rosés. No último ano, os brancos cresceram 13% em volume de produção, enquanto os tintos seguem perdendo espaço em diversos mercados.
No Brasil, esse movimento também é evidente. Durante o segundo episódio do AL VINO na VEJA+TV conversei com Juliana Carani, sommelière do Ristorantino, de São Paulo. Ela passou por restaurantes estrelados na Espanha e hoje presta consultorias em todo o país. Segundo essa especialista, o consumidor brasileiro finalmente começou a descobrir que um vinho branco pode ser tão complexo quanto um tinto — e, muitas vezes, envelhecer tão bem quanto ele.
A ideia de que vinhos brancos são simples, leves e feitos apenas para serem consumidos jovens ficou para trás. Basta olhar para regiões como Borgonha (França), Mosel (Alemanha) ou Rias Baixas (Espanha) para perceber que alguns dos vinhos mais longevos do mundo são, justamente, brancos.
Christian Burgos, publisher da revista Adega, acrescenta outro dado que ajuda a explicar essa mudança. Segundo ele, as vendas de Chablis, um dos mais tradicionais Chardonnay da Borgonha, cresceram cerca de 40% entre os consumidores brasileiros. Não é apenas uma troca de cor na taça. É uma mudança na mesa. “Hoje, raramente saímos para almoçar um ossobuco”, observou Christian durante o programa. A gastronomia contemporânea passou a valorizar mais o ingrediente do que os molhos pesados. Peixes, vegetais, frutos do mar, culinária asiática, mediterrânea e preparações mais leves ganharam espaço — e encontraram nos vinhos brancos parceiros naturais.
Juliana concorda. Para ela, o clima também ajuda a explicar esse fenômeno. Verões mais longos e temperaturas elevadas fazem com que consumidores procurem vinhos de maior frescor, boa acidez e menor sensação de peso.
Durante muito tempo, o vinho branco carregou um preconceito silencioso: o de que apenas os tintos poderiam ser profundos, complexos e dignos de uma adega. Hoje sabemos que um grande Riesling pode atravessar décadas. Um Chardonnay de terroir pode ganhar camadas de mel, frutos secos e mineralidade com o tempo. Um Alvarinho bem elaborado mostra que juventude e potencial de guarda podem conviver na mesma garrafa. “Vencer o tempo é a marca dos grandes vinhos e os brancos também tem essa qualidade”, completa Juliana.
Para brindar esses novos tempos, confira a seguir cinco mitos sobre os vinhos brancos:
1. “Vinho branco não envelhece.”
Alguns dos vinhos mais longevos do mundo são brancos. Riesling, Chardonnay de Borgonha, Alvarinho e Sémillon podem evoluir por décadas.
2. “Branco é sempre leve.”
Nem sempre. Há brancos encorpados, fermentados ou amadurecidos em barrica, com textura e estrutura comparáveis às de muitos tintos.
3. “Só combina com peixe.”
Vai muito além. Harmoniza perfeitamente com aves, carnes suínas, culinária asiática, massas, queijos, cogumelos e até alguns cortes bovinos, dependendo do preparo.
4. “Quanto mais gelado, melhor.”
Frio em excesso anestesia os aromas. Grandes brancos costumam mostrar muito mais complexidade entre 10 °C e 13 °C.
5. “Branco é vinho de verão.”
Os melhores vinhos brancos não têm estação. Têm personalidade.
🔗 Ver fonte
Comentários
Postar um comentário