
A virada do milênio foi marcada por uma salutar onda de conquistas no campo da diversidade mundo afora. A caminhada começou antes, com bandeiras agitadas nas ruas dos Estados Unidos que culminaram na famosa Revolução de Stonewall, em 1969, quando a comunidade hoje conhecida como LGBTQIA+ reagiu a batidas policiais e desencadeou um consistente movimento em prol dos direitos do vasto grupo sob a mira da intolerância. Avanços palpáveis vieram aos poucos. No início dos anos 2000, a Holanda cravou um pioneirismo ao legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, seguida por países como Bélgica, Espanha e Canadá. O preconceito no Brasil custou mais a arrefecer — foi uma década depois de nações desenvolvidas que os cartórios passaram a ser proibidos por lei de barrar a celebração das uniões homoafetivas. Uns anos mais tarde, o STF deu outro passo que fez girar a roda rumo a uma sociedade de mente mais aberta: equiparou a homofobia ao crime de racismo, uma triunfo fundamental que ajudou a romper a muralha do atraso.
O cenário de décadas de mobilização, porém, não se revela retilíneo, mas permeado de muitas idas e vindas. Sobre elas, vale derramar luz para frear qualquer sinal de uma volta atrás, como o que capta uma inédita pesquisa do instituto Ipsos. O levantamento em 26 países, entre Estados Unidos, os europeus e o Brasil, mostra que a aceitação aos integrantes do grupo LGBT vem caindo desde 2021, ano após ano. Se hoje 49% se dizem a favor da saída do armário em que tantos se trancam à custa de sofrimento, cinco anos atrás eram 55%. Também a aprovação da ideia de subir ao altar com alguém de mesmo sexo recuou 5 pontos (de 74% para 69%), e uma parcela cada vez menor encara bem demonstrações de afeto em público (42% hoje versus os 35% de antes). No geral, o Brasil se situa no mesmo patamar dos outros (veja o quadro), reforçando um fenômeno que tem como combustível uma tendência global. “A postura conservadora está se tornando mais forte e visível”, afirma Márcio Aguiar, gerente-sênior de pesquisas da Ipsos no Brasil.
O levantamento, que faz soar um alerta, se soma a outros termômetros que enfatizam o quão duro é dissolver o preconceito. Uma pesquisa do Pew Research pousou uma lupa sobre a fatia da população que não apenas torce o nariz para a homossexualidade, como a considera “moralmente inaceitável”. É o caso de 33% dos homens brasileiros ante 23% das mulheres — diferença, aliás, que sublinha a persistência do velho machismo entranhado em porção expressiva da ala masculina. “A identidade do homem heterossexual é muito consolidada nos valores básicos de uma sociedade que segue machista e se assusta com o que é diferente”, diz o antropólogo Bernardo Conde. Quem sente na pele os matizes diversos da intolerância não tem vida fácil. “Sinto medo em situações simples, como andar de mãos dadas com meu companheiro na rua”, conta o escritor Ramon Odriguez, 32 anos.
A aversão a causas de natureza identitária tomou impulso com a ascensão de governos de extrema direita planeta afora. Eles encampam abertamente a agenda anti-woke — uma exacerbação do politicamente correto que, é verdade, não raro resvala para exageros. Só que, ao fazê-lo, cometem excessos eles próprios, comprometendo ganhos preciosos. É o que se avista hoje na paisagem americana, onde, com o aval da Suprema Corte, a gestão Donald Trump baniu um leque de programas sob o chapéu diversidade, igualdade e equidade (DEI) em agências públicas e empresas que prestam serviço à Casa Branca. Também foram removidos dos sites oficiais termos como gay, lésbica e LGBT. A cartilha de sumo conservador tem atravessado fronteiras e chegado ao universo corporativo — Google e Meta, por exemplo, puxaram o freio de mão em relação a iniciativas pró-diversidade. Estão com um olho na cena política e outro na população — o novo levantamento aponta que o apoio a negócios que abraçam a sigla DEI foi reduzido de 58% para 49% desde 2021.
Outro indicador de um passo atrás nesse campo que tantas vitórias já colheu é a diminuição do grupo que vê com simpatia a representatividade da turma LGBT na publicidade e nas produções de TV — passaram de 36% para 30%, de acordo com a Ipsos. “Muitas empresas dessas áreas até criaram setores de diversidade, mas isso não significa que elaborem políticas em tal direção. Às vezes, é só uma questão de imagem”, avalia Ricardo Freitas, coordenador do Laboratório de Comunicação e Consumo da UERJ. Na vida real, isso cobra um preço de gente como o produtor cultural Heitor Werneck, 58 anos. “Tenho a convicção de que algumas portas deixaram de se abrir para mim por ser gay e por nunca esconder quem sou”, desabafa. Até agora, felizmente, nada sinaliza para a perda de direitos tão arduamente conquistados. Mas a intolerância segue à espreita e é preciso ter olhos abertos a isso para evitar um retrocesso.
Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002
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