Como um projeto baiano virou uma empresa de quase R$ 1 bi na Austrália



Um conjunto de direitos minerários comprado da Rio Tinto pelo equivalente hoje a R$ 47,1 milhões será levado à Bolsa australiana dentro de uma companhia avaliada em aproximadamente R$ 908 milhões. O salto não veio de uma mina em operação, mas de uma combinação de trabalho geológico, valorização dos minerais críticos e uma engenhosa estrutura societária montada pela Brazilian Rare Earths, a BRE.

A nova companhia é a Alurion Resources, dona do projeto Amargosa, na Bahia. Seu IPO recebeu demanda superior aos R$ 177 milhões oferecidos e deverá estrear na Australian Securities Exchange em 3 de agosto, sob o código ALU. Serão emitidas 47,6 milhões de ações pelo equivalente a R$ 3,72 cada. Executivos e conselheiros colocaram, juntos, mais de R$ 16 milhões na oferta.

A criatividade está na forma como a BRE financiou Amargosa sem vender o projeto nem obrigá-lo a disputar recursos com sua operação principal de terras raras. Antes do IPO, a empresa dividirá 196,1 milhões de ações da Alurion: 157,1 milhões serão entregues gratuitamente aos próprios acionistas da BRE, na proporção de 0,5607 ação da Alurion para cada papel da controladora, e 39 milhões permanecerão com a BRE.

Depois da oferta, os antigos acionistas da BRE terão aproximadamente 64,5% da Alurion diretamente. A BRE conservará outros 16%, avaliados em cerca de R$ 145 milhões pelo preço do IPO. Os investidores que entraram com dinheiro novo ficarão com os 19,5% restantes. Na prática, os acionistas da BRE recebem uma segunda empresa, continuam expostos indiretamente por meio da participação retida pela controladora e ainda ganham uma estrutura dedicada a captar os recursos de Amargosa.

O desenho resolve um problema clássico da mineração. Terras raras e bauxita podem compartilhar o subsolo baiano, mas disputam investidores, especialistas e modelos de financiamento diferentes. Ao separar os negócios, a BRE preserva seu caixa para os projetos de terras raras e deixa a Alurion buscar capital para terras, licenciamento, logística e estudos de engenharia.

Os sócios

A cisão também transporta para a nova companhia o agremiação de investidores reunido pela BRE. Entre seus principais acionistas estão a mineradora de carvão Whitehaven Coal; Todd Hannigan, presidente da BRE; o brasileiro Paulo Roberto Santoro Salomão; a gestora Regal; a Hancock Prospecting, da bilionária Gina Rinehart; o fundador Bernardo da Veiga; o executivo Dominic Allen; e o Kitabella Family Trust.

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Todos tiveram direito a receber ações da Alurion. A composição definitiva, porém, só será conhecida depois da emissão dos papéis do IPO, prevista para 28 de julho. A empresa não revelou quem entrou no book institucional nem quanto cada acionista ou administrador comprou na oferta.

Não é um grupo reunido ao acaso. Hannigan comandou a Aston Resources, onde o atual presidente da Alurion, Thomas Todd, era diretor financeiro. A Aston foi posteriormente incorporada à Whitehaven. Hannigan também preside a IperionX, onde Dominic Allen, conselheiro da Alurion, é diretor comercial. É uma rede que já trabalhou junta, realizou negócios e conhece o mercado australiano de capitais.

A continuidade é deliberada. Hannigan e Bernardo da Veiga serão diretores executivos da Alurion. O diretor financeiro, John Vander Ploeg, continuará ocupando a mesma função na BRE. A antiga controladora também prestará serviços corporativos à nova empresa durante a transição.

Ao redor desse núcleo, a Alurion montou um conselho com competências bastante específicas. O CEO, Maurício Noronha, veio da Bautek e da Sintertec, empresas ligadas a minerais industriais. Otavio Carvalheira foi presidente da Alcoa Brasil. Andrea Weinberg passou por Goldman Sachs, Merrill Lynch, BlackRock e BTG Pactual e acompanhou o investimento da Cosan na Vale. Thomas Todd traz a experiência financeira da Aston, enquanto Allen trabalhou anteriormente na Rio Tinto.

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O IPO foi coordenado pela Canaccord Genuity e pela Petra Capital, que atuou também como única responsável pela montagem do livro de ordens. São os mesmos bancos que fizeram a abertura de capital da BRE em 2023. Desta vez, a oferta não teve garantia firme de colocação e, ainda assim, a procura ultrapassou o tamanho máximo.

A Petra teve uma participação mais ampla. Além de vender as ações, trabalhou na estratégia de financiamento, no custo de capital e nas alternativas para bancar a futura construção. A Thomsons cuidou da assessoria jurídica australiana, o Demarest revisou os direitos minerários brasileiros, a EY auditou os números e a ERM/CSA Global fez a avaliação técnica independente.

Os ativos e a parte da Rio Tinto

O ativo levado à Bolsa começou a ser construído muito antes da criação da Alurion. A Rio Tinto passou mais de dez anos estudando a região, realizou 56,9 mil metros de perfuração em 4.257 furos e reuniu dados geológicos e ambientais. A BRE comprou os direitos em outubro de 2023, inicialmente pelo equivalente hoje a R$ 47,1 milhões em dinheiro e um pagamento futuro de R$ 202,6 milhões condicionado ao início da produção.

Em 2025, as empresas substituíram a parcela futura por um royalty hoje equivalente a R$ 5,06 por tonelada úmida de bauxita vendida durante toda a vida da mina. A Rio Tinto abriu mão da preferência sobre a compra da bauxita, mas manteve garantias sobre os direitos minerários e uma opção de adquirir 20% de um eventual projeto de níquel por aproximadamente R$ 126,6 milhões.

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O cordão umbilical ainda não foi totalmente cortado. A substituição da BRE pela Alurion como garantidora dos contratos com a Rio Tinto era uma condição da cisão, mas foi dispensada temporariamente. A BRE continuará respondendo pelos compromissos até que a Rio Tinto aceite formalmente a troca, embora tenha direito a ser indenizada pela Alurion.

A partir dos furos antigos da Rio Tinto e de novas análises, a BRE calculou um recurso mineral de 568 milhões de toneladas de bauxita. Desse total, 98 milhões de toneladas poderiam ser embarcadas diretamente, sem beneficiamento. A reanálise das amostras também revelou cerca de 27,1 milhões de quilos de gálio contido no minério.

A primeira fase do projeto, porém, é essencialmente um negócio de bauxita. O estudo preliminar prevê extrair 5 milhões de toneladas anuais, transportá-las por rodovia e embarcá-las pelo Porto de Enseada. Não seria necessário construir inicialmente uma usina de beneficiamento, uma barragem de rejeitos ou uma ferrovia.

O investimento estimado é de R$ 602,6 milhões. Pelas premissas da empresa, a operação teria vida útil de 17 anos, Ebitda médio anual de R$ 516,5 milhões e valor presente líquido de R$ 3,19 bilhões, considerando a bauxita a aproximadamente R$ 360 por tonelada. São números de um estudo de escopo, com margem ampla de incerteza, e não de um projeto executivo pronto para construção. A produção é projetada para 2029, condicionada a estudos, licenças e financiamento.

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Para onde irá o dinheiro do IPO

Os R$ 177 milhões do IPO não serão suficientes para construir a mina. Servirão para financiar os próximos dois anos de desenvolvimento. Dos R$ 182,6 milhões disponíveis, já considerando o caixa existente, R$ 46,8 milhões irão para a compra de terras, R$ 41,1 milhões para estudos e licenciamento e R$ 26,2 milhões para meio ambiente e relacionamento com comunidades. Outros R$ 9,9 milhões financiarão exploração, segurança e equipamentos.

A Alurion reservará ainda R$ 37,6 milhões para capital de giro, aproximadamente R$ 10,6 milhões para quitar empréstimos da BRE e da Borborema Recursos Minerais e até R$ 10,5 milhões para as despesas da própria abertura de capital. Aproximadamente R$ 124 milhões, portanto, chegarão diretamente às atividades de maturação de Amargosa.

A logística também está em construção. A companhia assinou um memorando não vinculante com a Enseada Indústria Naval para estudar o uso do porto, mas ainda não fechou capacidade, preço ou volumes. A expansão futura para 15 milhões de toneladas anuais dependeria da Ferrovia de Integração Oeste-Leste e do Porto Sul, com os quais ainda não existem contratos vinculantes.

O gálio é o grande multiplicador possível e, por enquanto, apenas uma opção. A concentração da oferta mundial na China e as restrições comerciais elevaram o valor estratégico do mineral, usado em semicondutores, telecomunicações e equipamentos de defesa. A China responde por mais de 90% do refino global, segundo a Agência Internacional de Energia.

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Mas a Alurion não tem hoje tecnologia contratada, planta, parceiro industrial ou comprador para recuperar o gálio. O estudo econômico não atribui receita ao mineral. Como o gálio normalmente é obtido durante o refino da bauxita em alumina, sua monetização dependerá de testes adicionais e de um acordo com uma refinaria externa.

A empresa também ainda precisa comprar terras, concluir estudos ambientais, consultar comunidades e obter as licenças de mineração. O prospecto identifica interferências com assentamentos rurais, unidades de conservação e áreas de influência de comunidades quilombolas. São justamente essas etapas e não a abertura da mina que o IPO financiará primeiro.

A engenharia empresarial, portanto, produziu uma companhia de R$ 908 milhões antes de produzir a primeira tonelada. O número inclui R$ 177 milhões de dinheiro novo, anos de trabalho geológico e o prêmio que o mercado passou a pagar pela possibilidade de uma fonte de gálio fora da China. Não é uma simples multiplicação dos R$ 47,1 milhões equivalentes ao valor pago à Rio Tinto.

A BRE conseguiu retirar Amargosa da fila de investimentos, deu aos acionistas dois papéis negociados em Bolsa, preservou uma participação relevante e colocou o próprio projeto para financiar sua maturação. Agora, a Alurion terá de converter essa criatividade societária em licenças, cliente e financiamento. A bauxita deverá pagar a conta inicial. O gálio é o que pode transformar uma boa mina em um negócio muito maior.

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