As regras do jogo antes do jogo



Escrever sobre futebol depois de uma eliminação brasileira talvez seja uma das atividades mais perigosas que existem. Poucos temas despertam emoções tão intensas e tão pouco espaço para argumentos racionais. Cada torcedor tem um diagnóstico definitivo, um culpado preferido e uma convicção inabalável sobre o que deveria ter sido feito – quem nunca se passou por técnico da seleção brasileira que atire a primeira pedra!

Há ainda um segundo risco. O de transformar uma coluna que pretende discutir economia, direito e instituições em mais um debate sobre escalações, substituições e esquemas táticos. Há profissionais muito melhores do que eu para isso. Meu interesse aqui é outro.

Gostaria de olhar para o futebol — e, na verdade, para o esporte em geral — por uma lente um pouco diferente: a da Nova Economia Institucional. Durante anos, economistas como Douglass North explicaram que instituições são, essencialmente, as regras do partida. São elas que organizam incentivos, coordenam comportamentos e tornam determinados resultados mais ou menos prováveis. Não poucas vezes recorri justamente ao futebol para explicar esse conceito (tenho até um slide para minhas palestras com a imagem de uma bola de futebol fazendo um gol!). Talvez agora seja a hora de inverter a analogia: usar as instituições para compreender o próprio futebol.

Quando pensamos em regras no esporte, normalmente imaginamos apenas aquelas que acontecem dentro de campo: impedimento, faltas, cartões, VAR. Mas essas regras são praticamente iguais para todos. Elas não explicam por que alguns países conseguem permanecer competitivos por décadas, enquanto outros alternam momentos de brilho com longos períodos de frustração.

As regras realmente decisivas quase nunca aparecem durante a partida. Elas começam muito tempo antes do apito inicial. Estão na formação das categorias de base, na qualificação de treinadores, na governança das federações, nos critérios de convocação, na integração entre clubes e seleção, na preparação física e psicológica dos atletas, no uso de ciência de dados, na estabilidade dos projetos e, talvez mais importante, na cultura que recompensa disciplina, planejamento e mérito.

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É exatamente esse tipo de regra que interessa aos economistas institucionais. Instituições não produzem diretamente um grande jogador. Elas aumentam, de forma persistente, a probabilidade de que grandes jogadores apareçam, sejam bem-preparados e consigam desempenhar todo o seu potencial. O talento continua indispensável, mas deixa de depender apenas do acaso, ou como se costumava dizer, somente da “arte”.

Essa talvez seja a principal transformação do esporte nas últimas décadas. Durante muito tempo, seleções extraordinárias conseguiam compensar deficiências organizacionais graças ao brilho de alguns indivíduos excepcionais. Era a arte pura. Hoje isso acontece cada vez menos. A profissionalização se espalhou. Ciência do esporte, análise de desempenho, preparação física e psicológica, departamentos médicos, estatísticas e planejamento estratégico passaram a fazer parte da rotina de praticamente todas as grandes seleções. A vantagem competitiva deixou de estar apenas no talento individual e passou a residir também na qualidade das organizações.

Talvez por isso seja tão difícil aceitar que países pequenos frequentemente obtenham resultados esportivos muito superiores aos de nações muito maiores. O Brasil é a oitava maior população do planeta e um celeiro inesgotável de talentos. Ainda assim, nossos resultados olímpicos continuam modestos quando comparados ao nosso tamanho, e mesmo no futebol deixamos de exercer a hegemonia que parecia natural algumas décadas atrás. Não parece razoável imaginar que nos tenha faltado talento. Talvez nos tenham faltado instituições (regras).

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A comparação com outras modalidades ajuda a ilustrar esse ponto. O vôlei brasileiro, especialmente o masculino, atravessou diferentes gerações, perdeu atletas históricos, trocou treinadores, renovou elencos e permaneceu competitivo durante décadas. Isso dificilmente acontece por acaso. Há ali algo mais profundo do que uma geração particularmente brilhante. Há um conjunto de regras, incentivos e práticas organizacionais que consegue transformar renovação em continuidade.

O futebol brasileiro, em contraste, frequentemente transmite uma sensação diferente. A cada quatro anos, recomeçamos praticamente do zero. Mudam dirigentes, treinadores, diagnósticos e culpados. A cada eliminação, discute-se quem falhou. Muito menos se discute quais regras produziram, ao longo dos anos, o resultado que agora lamentamos.

Essa talvez seja a maior contribuição da economia institucional para um debate que normalmente é conduzido apenas pela emoção. Instituições existem justamente para reduzir nossa dependência de heróis. Organizações bem estruturadas continuam funcionando mesmo quando indivíduos extraordinários se aposentam. Organizações frágeis precisam descobrir um novo gênio a cada geração.

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Naturalmente, isso não significa que exista uma fórmula capaz de garantir títulos mundiais. O esporte continuará preservando sua dose inevitável de imprevisibilidade — felizmente. Tampouco significa que o Brasil tenha entrado em um caminho sem volta. Instituições podem ser construídas, aperfeiçoadas e fortalecidas. Essa é, justamente, sua maior virtude.

Talvez tudo isso pareça excessivamente abstrato para explicar uma eliminação em Copa do Mundo. Pode ser. Mas talvez essa seja justamente a utilidade das boas teorias: permitir enxergar, por trás de um resultado específico, mecanismos muito mais permanentes. O futebol continua sendo um partida decidido em noventa minutos. A construção das condições para vencê-lo, porém, leva décadas.

O sonho do hexa continuará até 2030 (e talvez até depois). Mas, até lá, talvez a pergunta mais importante não seja quem vestirá a camisa 10 da seleção. Talvez seja outra: quais regras estamos construindo hoje para que o talento brasileiro volte, de forma consistente, a produzir resultados extraordinários amanhã?

Luciana Yeung é Professora Associada e Coordenadora do Núcleo de Law & Economics do Insper. Membro-fundadora e ex-presidente da Associação Brasileira de Direito e Economia (ABDE). Pesquisadora-visitante no Law and Economics Foundation na Universidade de St Gällen (Suíça) e no Institute of Law and Economics, da Universidade de Hamburgo (Alemanha). Autora de “O Judiciário Brasileiro – uma análise empírica e econômica”, “Curso de Análise Econômica do Direito” (juntamente com Bradson Camelo), além de dezenas de outras publicações. Foi agraciada em Junho de 2026 com a “Medalha ALACDE” por sua difusão e divulgação do conhecimento científico em Direito & Economia na América Latina.

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