
A expansão do mapa de produção do vinho no território brasileiro não para de produzir surpresas. Tome-se como exemplo a Paraíba, terra da carne de sol com macaxeira e do queijo coalho. Ali talvez seja o último lugar onde você esperaria encontrar um projeto de enoturismo. Foi exatamente por isso que a história chamou minha atenção. Em Bananeiras, cidade serrana a pouco mais de duas horas de João Pessoa, o produtor de eventos carioca Kadu Milano e Telma Ferreira decidiram apostar em algo que ainda não existe no estado: uma rota de vinho.
O detalhe é que o primeiro vinho da propriedade sequer foi produzido. Os vinhedos ainda estão crescendo, as primeiras colheitas estão por vir e ninguém sabe exatamente como as uvas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Sauvignon Blanc e Malbec irão se comportar naquele pedaço da Serra da Borborema. Mesmo assim, a Casa Ferreira abre suas portas neste mês, mais precisamente no Dia dos Namorados, apostando justamente naquilo que transformou regiões como Espírito Santo do Pinhal, em São Paulo, em fenômenos turísticos: experiência, narrativa e paisagem.
À primeira vista, pode parecer um salto de fé. Mas Bananeiras já vem se transformando há alguns anos. Durante a pandemia, a cidade viveu um fenômeno semelhante ao observado em destinos de montanha pelo Brasil. Com temperaturas que podem chegar a 14 graus durante o inverno, ruas tranquilas e uma paisagem verde que desafia todos os estereótipos sobre o Nordeste, a região passou a atrair moradores de João Pessoa, Recife e Natal em busca de uma segunda residência.
Foi nesse contexto que surgiram condomínios de alto padrão como o Alteza e o Fazenda Alteza, empreendimentos da mesma família responsável pela Casa Ferreira. Jackson Ferreira, o patriarca, é um juiz aposentado que comprava terras para criar gado. Sob a influência dos filhos, o pasto perdeu espaço para o empreendimento imobiliário.
Em seus condomínios, algumas residências ultrapassam facilmente a casa dos 5 milhões de reais e transformaram Bananeiras em uma espécie de “Campos do Jordão nordestina”, atraindo empresários, magistrados, políticos e famílias em busca de refúgio de fim de semana. No sábado, 6, até o conterrâneo Gustavo Feliciano, Ministro do Turismo, era esperado para o lançamento do vinho da casa, resultado da colheita da primeira safra de um desses empreendimentos (ao contrário do projeto da Casa Ferreira, o Fazenda Alteza já iniciou a produção).
Os vinhos entraram na história quase por acaso. Tudo começou quando a família resolveu plantar algumas videiras dentro de uma das propriedades. A intenção inicial era simples: criar um elemento de diferenciação para os empreendimentos imobiliários. Mas o que era marketing paisagístico acabou despertando uma pergunta maior: e se Bananeiras tivesse vocação para vinhos finos?
A família resolveu investigar o potencial do negócio, investindo em estudos agronômicos e trazendo para lá consultores especializados. O resultado foi animador o suficiente para justificar novos investimentos. Mas o aspecto mais curioso da história não está no vinhedo. Está na decisão de abrir o enoturismo antes mesmo de ter vinho próprio. Como diz o ditado popular, seria colocar a carroça na frente dos bois?
Enquanto a maioria das vinícolas constrói restaurantes, hotéis e centros de visitação depois de consolidar a produção, a Casa Ferreira faz o caminho inverso. O visitante chega primeiro pela história. A atração principal é uma casa centenária preservada praticamente como era décadas atrás. Nada de arquitetura futurista, fachadas de vidro ou salas de degustação que lembram aeroportos internacionais. O passeio, com direito a visitas ao vinhedo e à propriedade, além de almoço harmonizado, custará 398 reais por pessoa.
A proposta é valorizar as memórias da família, as cartas trocadas pelo casal fundador durante o namoro e a relação afetiva construída ao longo de cinquenta anos de casamento. O vinho que acompanhará o brinde e estará nos almoços harmonizados produzidos com ingredientes locais, por enquanto, vem do Sul, da Vinhos Fabian, da gaúcha Nova Pádua.
A Paraíba não está sozinha nem é pioneira no Nordeste, Pernambuco já possui iniciativas em Garanhuns. O Vale do São Francisco continua expandindo sua influência, chamando atenção do mundo como a única região em que é possível ver lado a lado as diversas fases da videira. Pequenos produtores surgem em diferentes pontos do Nordeste experimentando variedades, técnicas e adaptações climáticas.
Talvez nem todos produzam grandes vinhos neste momento, o que não significa que a qualidade não possa evoluir. Mas isso já não parece ser o ponto principal. O que está em partida é algo maior: a criação de destinos. O vinho deixou de ser apenas uma bebida para se transformar em ferramenta de turismo, desenvolvimento imobiliário, gastronomia e identidade regional.
Em Bananeiras, a videira ainda está aprendendo a crescer, mas o turismo, pelo visto, já começa a dar seus primeiros frutos.
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