
Como lidar com a frustração profissional: o que atletas fora da Copa ensinam sobre o tema Após o empate em 1 a 1 com o Marrocos na estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026, jogadores e o técnico Carlo Ancelotti apontaram a ansiedade como um dos principais fatores para o desempenho abaixo do esperado da Seleção. “Um pouco de ansiedade, acho que sim. Na primeira etapa, eles saíam da pressão e faziam transições perigosas. Podíamos ter mais controle”, afirmou Ancelotti. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 Além do treinador, os laterais Danilo e Ibañez também citaram a ansiedade como complicador da performance da seleção na estreia. Em competições de alto nível, fatores emocionais podem influenciar tomada de decisão, concentração e rendimento. Na Copa do Mundo, a pressão não aparece apenas quando as partidas começam. Ela iniciam antes da estreia, atravessa treinos, disputas por convocação e acompanha os atletas até nos momentos em que ninguém está olhando. Mas essa lógica já não pertence apenas ao esporte. 👷 A sensação constante de avaliação, a necessidade de entregar resultados rapidamente, o medo de falhar, a comparação permanente e a dificuldade de "desligar" da performance também faz parte da rotina de milhões de profissionais fora dos estádios. Mas, embora os desafios tenham se tornado cada vez mais parecidos, a forma de lidar com eles segue caminhos diferentes. Segundo especialistas ouvidos pelo g1, no esporte de elite a preparação psicológica deixou de ser um complemento e passou a integrar a rotina de treinamento dos atletas, sendo tratada como parte estratégica do desempenho. Já nas empresas, a saúde emocional ainda costuma aparecer como uma resposta tardia, geralmente quando o desgaste já se tornou um problema. A própria atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em 26 de maio, reflete uma tentativa de mudar essa lógica ao exigir que as empresas identifiquem, previnam e gerenciem riscos psicossociais relacionados ao trabalho, como sobrecarga, assédio e pressão excessiva. Esse descompasso ajuda a explicar por que a pressão contemporânea tem produzido efeitos cada vez mais concretos. Um levantamento global Work Relationship Index, da HP, mostra que apenas 29% dos profissionais estão na chamada “Zona Saudável” de trabalho, enquanto 34% já se encontram na “Zona Crítica”, faixa associada a desgaste emocional significativo. O estudo também classifica os profissionais em "Zona de Atenção", que representa um estágio intermediário, marcado por sinais iniciais de alerta e desgaste. O estudo ouviu 18,2 mil profissionais de 14 países, incluindo o Brasil, onde 71% afirmam que as exigências no trabalho aumentaram no último ano. O cenário também aparece nas estatísticas oficiais. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil concessões de benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais, segundo o Ministério da Previdência Social. Ansiedade, depressão e reações ao estresse grave lideram os afastamentos. O jogador Fernandinho, do Brasil, se lamenta após o terceiro gol da Alemanha, marcado por Toni Kroosduring, durante a semifinal da Copa do Mundo em Belo Horizonte. Os alemães venceram por 7x1 e se classificaram para a final Natacha Pisarenko/AP/Arquivo Como o cérebro interpreta a pressão Para o pesquisador da USP Gustavo Drago, que participou da preparação de atletas olímpicos em Pequim, Londres e Rio, o ponto de interseção entre esporte e trabalho está justamente na natureza da pressão e na forma como ela é percebida. Ao acompanhar atletas de 16 modalidades, ele observou que pessoas submetidas exatamente às mesmas condições reagiam de maneiras completamente diferentes, do ponto de vista fisiológico, emocional e comportamental. ⚽ Um dos exemplos mais claros aparece na comparação entre competir “em casa” e “fora de casa”. Para alguns atletas, o ambiente adverso era interpretado como uma ameaça. Essa percepção gerava uma resposta biológica mensurável, com aumento do cortisol, alterações no sistema imunológico e comportamentos mais hesitantes, como menor intensidade física e decisões menos assertivas. Outros reagiam de forma oposta. Diante da mesma pressão, encaravam o contexto como um estímulo, o que estava associado ao aumento da testosterona livre, maior intensidade e respostas mais competitivas. Esse princípio está diretamente ligado ao conceito de "cérebro preditivo", segundo o qual o cérebro não reage apenas ao ambiente, mas às previsões que faz sobre ele. A lógica, segundo Drago, ajuda a entender por que ambientes corporativos semelhantes podem gerar experiências tão diferentes entre profissionais. Duas pessoas podem trabalhar sob a mesma meta, na mesma equipe e com o mesmo gestor, mas, enquanto uma mantém estabilidade emocional, a outra entra em estado contínuo de alerta, explica o pesquisador. E esse estado tem custo cognitivo. Quando o cérebro interpreta o ambiente como uma ameaça constante, ele desloca recursos mentais para a autoproteção, explica o pesquisador. A atenção deixa de estar totalmente voltada à tarefa e passa a ser dividida com pensamentos de erro, julgamento, rejeição ou medo de perda de espaço. ⚠️ Na prática, isso reduz a criatividade, prejudica a tomada de decisão, aumenta a ansiedade e favorece comportamentos defensivos, como procrastinação, perfeccionismo excessivo e dificuldade de inovar. No esporte, esse mecanismo pode fazer um atleta hesitar em um momento decisivo. No trabalho, pode se traduzir em profissionais tecnicamente capazes que não conseguem performar sob pressão. Para Drago, esse é um dos pontos mais críticos do ambiente corporativo atual: a permanência prolongada em estado de alerta. "O cérebro humano interpreta a insegurança constante como ameaça, e isso compromete diretamente a performance", afirma. Avaliação permanente O sócio-líder de Auditoria da CLA Brasil, Thiago Brehmer, observa que essa dinâmica é reforçada por estruturas organizacionais que intensificam a avaliação contínua e metas de curto prazo. “Tanto no esporte quanto no ambiente corporativo existe uma combinação de pressão por desempenho e sensação constante de avaliação”, afirma. Segundo ele, o problema se agrava em culturas nas quais o erro é tratado como falha de caráter, e não como parte do processo de aprendizagem, o que amplifica o medo, a autocobrança e a insegurança. 🤳Essa pressão ganhou novas camadas com a hiperconectividade, segundo Brehmer. Se antes havia uma separação mais clara entre momentos de cobrança e de descanso, hoje a avaliação parece permanente. Atletas convivem com julgamento em tempo real nas redes sociais. Profissionais lidam com métricas constantes, exposição digital e comparação contínua em plataformas profissionais. O resultado é uma sensação de que é preciso performar o tempo todo. E é exatamente nesse ponto que o esporte se distancia, não pela ausência de pressão, mas pela existência de preparo. ➡️ No alto rendimento, não se espera que o atleta apenas “aguente” a pressão. Ele é treinado para lidar com ela antes mesmo de ela ocorrer. Existe uma preparação estruturada que inclui técnicas de visualização, controle emocional, foco atencional e recuperação após o erro. O objetivo é reduzir a imprevisibilidade e tornar situações críticas mais familiares do ponto de vista mental. ➡️ No ambiente corporativo essas estratégias começam a ganhar espaço, mas ainda de forma menos sistemática, afirma Brehmer. A visualização, por exemplo, permite que o cérebro antecipe cenários e reduza a sensação de ameaça. Ao ensaiar mentalmente uma apresentação ou negociação, o profissional aumenta a previsibilidade e diminui a reatividade. Outra estratégia central é o direcionamento da atenção para variáveis controláveis. No esporte, um nadador pode se concentrar no número de braçadas, no ritmo e na respiração. No trabalho, isso significa focar o preparo, a clareza de raciocínio, a qualidade técnica e a execução, e não o julgamento externo ou o medo de falhar. Segundo os especialistas ouvidos pelo g1, esse deslocamento tem efeito direto no cérebro: reduz o estado de ameaça e aumenta a capacidade de concentração e eficiência mental. Goleiro Hugo Souza ficou fora da convocação para a Copa de 2026 GIF/ Hugo Souza Frustrações Outra semelhança entre o esporte de alto rendimento e o mundo corporativo está na forma como as pessoas lidam com frustrações e expectativas não atendidas. No esporte, ficar fora de uma convocação pode gerar ruptura emocional após anos de preparação. No trabalho, situações como não conseguir uma promoção ou perder uma oportunidade estratégica produzem impacto semelhante. “Muitas pessoas constroem parte da identidade em torno da performance”, afirma Drago. 🚨 O risco surge quando a frustração deixa de ser interpretada como um episódio e passa a ser incorporada como definição pessoal. É a transição do "não consegui" para o "não sou capaz". Para os especialistas, essa mudança marca a passagem da frustração saudável para a destrutiva, aquela que afeta a autoestima, aumenta a ansiedade e pode favorecer quadros de adoecimento mental. No esporte, a convivência com derrotas é parte estruturante da formação. Atletas aprendem desde cedo que perder faz parte do processo e desenvolvem mecanismos para transformar a frustração em adaptação. No ambiente corporativo, essa cultura ainda é menos consolidada. “Muitas organizações ainda estão centradas na ideia de sucesso imediato, e não de evolução contínua”, afirma Brehmer. Essa diferença se estende a outro ponto fundamental: a recuperação. Recuperação x produtividade No esporte de alto rendimento, o descanso não é visto como pausa improdutiva. Ele faz parte da própria estratégia de desempenho. Monitoramento fisiológico, controle de carga, acompanhamento psicológico e técnicas de recuperação são utilizados justamente para evitar queda de rendimento e burnout. A lógica é simples: pressão sem recuperação reduz a performance. No ambiente corporativo, porém, ainda predomina a associação entre produtividade e disponibilidade constante. Hiperconectividade, jornadas extensas e dificuldade de desconexão criam um cenário em que o estado de alerta deixa de ser exceção e passa a ser padrão. Brehmer defende ainda que 'o cérebro humano não foi feito para operar continuamente sob ameaça". Os efeitos aparecem de forma progressiva: ansiedade, insônia, queda de concentração, redução da criatividade, exaustão emocional e aumento do risco de burnout. Além disso, ambientes marcados por insegurança psicológica tendem a reduzir a inovação e a qualidade das decisões, porque os profissionais passam a agir para evitar erros, e não para gerar resultados. Segundo Drago, uma das principais discussões dos próximos anos será justamente compreender que a performance sustentável não nasce apenas da cobrança. Ela depende de fatores como confiança, autonomia, segurança psicológica e senso de pertencimento. Em outras palavras, depende daquilo que o esporte aprendeu antes.
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