
Uma novo remédio em estudo apresentou resultados expressivos para pessoas com diabetes tipo 2, um grupo no qual a redução de peso costuma ser mais difícil de alcançar. A zenagamtida, anteriormente chamada de amicretina, levou a uma perda média de até 14,6% do peso corporal após 36 semanas de tratamento. O dado foi apresentado no congresso da Associação Americana de Diabetes (ADA) de 2026, realizado em Nova Orleans, nos Estados Unidos.
O resultado merece destaque não apenas pelo número elevado, mas também pelo perfil dos participantes. Estudos com medicamentos voltados ao controle do peso mostram que pessoas com diabetes tipo 2 tendem a ter menor redução de peso do que aqueles sem a doença.
Não se trata de uma regra absoluta para todos os pacientes, mas de um padrão observado em diferentes pesquisas clínicas. Por isso, uma redução média de quase 15% pode ser considerada especialmente relevante.
A zenagamtida foi desenvolvida pela Novo Nordisk, a mesma fabricante de Ozempic e Wegovy. Com esses resultados, a molécula deverá avançar para estudos de fase 3, etapa necessária para confirmar sua eficácia e avaliar com mais profundidade a segurança do tratamento em um número maior de pessoas.
O peso no diabetes
O diabetes tipo 2 é uma doença crônica marcada pela dificuldade do organismo em utilizar adequadamente a insulina, hormônio responsável por ajudar a glicose a entrar nas células. E a resistência à insulina, alterações metabólicas e alguns tratamentos utilizados para controlar a doença podem interferir na resposta à perda de peso.
Na prática, ensaios clínicos anteriores ajudam a ilustrar essa diferença. No estudo STEP 1, realizado com pessoas com sobrepeso ou obesidade sem diabetes, a semaglutida (do Ozempic) levou a uma redução média de 14,9% do peso corporal após 68 semanas. Já no estudo STEP 2, que avaliou pessoas com sobrepeso ou obesidade e diabetes tipo 2, a perda média com a mesma dose de semaglutida foi de 9,6% no mesmo período.
Os estudos tinham populações e desenhos próprios, portanto não permitem uma comparação direta perfeita, mas ajudam a demonstrar uma tendência conhecida pelos especialistas.
Uma análise publicada em 2024 também encontrou resposta inferior à semaglutida entre pacientes com diabetes tipo 2 na comparação com pessoas com obesidade sem diabetes. Entre as possíveis explicações estão a resistência à insulina e adaptações do organismo relacionadas ao controle da glicose.
Nesse contexto, atingir uma redução média de até 14,6% do peso em apenas 36 semanas coloca a zenagamtida entre as moléculas experimentais que merecem acompanhamento especial. O resultado não significa que todas as pessoas perderão esse percentual, nem permite comparar diretamente medicamentos avaliados em estudos diferentes. Ainda assim, o número é impactante.
Como funciona a zenagamtida
Ela se diferencia por combinar dois mecanismos de ação em uma única molécula: atua nos receptores do GLP-1 e da amilina, hormônios relacionados ao controle da glicose, à saciedade e à regulação do apetite.
Os agonistas de GLP-1, classe da semaglutida, ganharam espaço nos últimos anos por contribuírem tanto para a melhora da glicemia quanto para a redução do peso corporal. A amilina, por sua vez, também participa dos sinais de saciedade enviados ao cérebro após as refeições. A proposta da zenagamtida é unir essas duas frentes em um tratamento semanal.
O estudo de fase 2 apresentado no congresso da ADA 2026 avaliou 262 adultos com diabetes tipo 2 que não apresentavam controle adequado da doença. Todos utilizavam metformina em dose estável, com ou sem medicamentos da classe dos inibidores de SGLT2. Os participantes foram divididos para receber placebo ou uma das seis doses semanais de zenagamtida por via subcutânea, variando de 0,4 mg a 40 mg.
Benefícios além do peso
A perda de peso não foi o único resultado relevante. Após 36 semanas, todas as doses avaliadas apresentaram redução estatisticamente significativa da hemoglobina glicada, exame que dá uma média do controle da glicose nos últimos meses, em comparação com o placebo.
No início do estudo, a média dos participantes era de 7,8%. Com a dose de 40 mg de zenagamtida, a redução estimada chegou a 1,71 ponto percentual. No grupo placebo, a queda foi de 0,14 ponto percentual.
Outro indicador importante foi o chamado tempo no alvo, período em que a glicose permanece entre 70 e 180 mg/dL. Com a dose mais alta, esse percentual alcançou até 91,4%. Quanto mais tempo a glicose permanece dentro da faixa recomendada, menor tende a ser o risco de oscilações importantes ao longo do dia.
O que vem a seguir
Os eventos adversos mais comuns foram gastrointestinais e, em sua maioria, apresentaram intensidade leve ou moderada. O estudo utilizou um esquema de aumento gradual da dose. Caso a quantidade planejada não fosse tolerada, o tratamento era interrompido permanentemente.
A Novo Nordisk informou que pretende iniciar um programa de estudos de fase 3 com zenagamtida para adultos com diabetes tipo 2 no segundo semestre de 2026. A molécula também está sendo estudada em pessoas com sobrepeso ou obesidade e em versões injetável e oral.
Até que novos resultados sejam conhecidos, a zenagamtida deve ser vista como uma promessa em investigação, e não como um tratamento aprovado e disponível. Aguardemos, portanto, os próximos capítulos.
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