Presidente da Bolívia reduz o próprio salário em 50% em meio a protestos



O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, anunciou nesta segunda-feira, 25, que reduziria seu próprio salário e o de seus ministros pela metade, em meio a uma crescente crise política marcada por protestos e bloqueios de estradas que exigem sua renúncia.

Em um evento em Sucre, capital constitucional do país, Paz declarou que os cortes salariais demonstram o “compromisso do governo com o país”.

O aceno ao eleitorado veio na quarta semana de uma onda de protestos que tomou conta da Bolívia. As manifestações têm provocado problemas cada vez mais sensíveis na cadeia de suprimentos nas cidades de La Paz e El Alto, onde a escassez de alimentos, combustível e medicamentos já começou a afetar mercados, hospitais e postos de gasolina.

Os atos pressionam o governo Paz (centro-direita) a reverter suas políticas de austeridade para enfrentar o aumento do custo de vida. O presidente, empossado há apenas seis meses, herdou uma economia em crise após a hegemonia de quase duas décadas do Movimento ao Socialismo (MAS), que tem no ex-presidente Evo Morales seu guia político. Desde a campanha, Paz defendeu que cortes de gastos e a redução de subsídios para compra de combustíveis seriam necessários para colocar as finanças públicas em ordem.

Onda de protestos

A Bolívia enfrenta, desde o início de maio, protestos que começaram com reivindicações sindicais — como reajustes salariais e críticas a uma lei sobre reclassificação de terras — mas rapidamente passaram a incorporar pedidos pela renúncia de Paz.

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A crise se agravou na primeira semana deste mês, quando a Federação de Camponeses Túpac Katari iniciou um bloqueio “indefinido” de rodovias no oeste do país. Desde então, La Paz permanece parcialmente cercada.

O movimento ganhou força com a adesão da Central Operária Boliviana, do grupo indígena Ponchos Rojos e de apoiadores de Evo, que organizaram uma marcha de cerca de 190 quilômetros rumo à capital. Na semana passada, porém, as manifestações ganharam contornos mais violentos, envolvendo confrontos com a polícia, atos de vandalismo, ataques a prédios públicos e estações do teleférico da capital, além do saque de alguns estabelecimentos comerciais e da queima de viaturas.

Segundo o porta-voz presidencial José Luis Gálvez, o governo identificou convocações para que manifestantes portassem armas durante os atos. Até o momento, não houve registro de mortos ou feridos por disparos de arma de fogo, mas os Estados Unidos já alertaram para uma “tentativa de golpe de Estado” na Bolívia.

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“O que está acontecendo é um golpe em andamento”, afirmou o vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, em Washington. Segundo ele, a mobilização seria financiada por “uma aliança perversa entre política e crime organizado na região”.

Mudanças do governo Paz

Ex-senador de centro-direita e filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, que governou a Bolívia entre 1989 e 1993, Paz chegou ao poder prometendo uma política de choque para enfrentar a pior crise econômica do país em quatro décadas. A escassez de dólares e combustíveis, combinada ao avanço da inflação, já pressionava a economia boliviana ainda nos últimos anos do governo de Luis Arce, do MAS.

Uma das primeiras medidas da nova gestão foi acabar com o subsídio estatal aos combustíveis, política que vigorava há cerca de vinte anos. O novo governo defendeu que a abertura do mercado estimularia a concorrência, elevaria a qualidade dos produtos e reduziria problemas de abastecimento. Suas propostas renderam-lhe a triunfo nas eleições do ano passado, quando superou o rival de direita Jorge “Tuto” Quiroga no segundo turno com quase 55% dos votos.

O resultado, porém, foi o oposto. Além de a falta de combustível persistir, o país passou a enfrentar o escândalo do chamado “combustível adulterado”, após irregularidades serem identificadas em parte dos produtos distribuídos. Paz, por sua vez, atribuiu o episódio a uma suposta sabotagem promovida por ex-integrantes do governo ligados ao MAS.

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