
Antes mesmo de um personagem de filme abrir a boca, o figurino já afirmou muito sobre ele. O tecido, a cor, o peso de um casaco ou a simplicidade de um vestido carregam pistas silenciosas sobre tempo, lugar e identidade. Na corrida pelo Oscar 2026, que acontece no próximo domingo, 15 de março, a categoria de Melhor Figurino revela justamente isso: roupas que ajudam a construir mundos inteiros — da fantasia épica às reconstruções históricas minuciosas.
Entre universos imaginários, dramas históricos e narrativas urbanas, os figurinos indicados ao Oscar deste ano lembram que no cinema a roupa raramente é apenas roupa. Ela é cenário, contexto e, muitas vezes, personagem. Vale destacar ainda as figurinistas, profissionais que moldaram algumas das imagens mais marcantes das últimas décadas. Há veteranas premiadas, colaboradoras fiéis de grandes diretores e também estreantes na categoria. Em comum, todas tratam o figurino como linguagem narrativa. A seguir, um olhar sobre os trabalhos que vestem — e definem — os personagens da temporada.
Pecadores
Poucas figurinistas transformaram o figurino em instrumento cultural com tanta potência quanto Ruth E. Carter. Vencedora de dois Oscars por “Pantera Negra” e “Pantera Negra: Wakanda Forever”, ela já havia sido indicada por títulos como “Malcolm X” e “Amistad” Em “Pecadores”, Ruth retorna ao tipo de trabalho que consolidou sua carreira: figurinos que misturam pesquisa histórica, identidade cultural e simbolismo visual. Cada personagem traz em suas roupas sinais claros sobre pertencimento, hierarquia e trajetória. O resultado é um guarda-roupa cinematográfico que não apenas veste os personagens, mas os explica.

Avatar: Fogo e Cinzas
Em Pandora, até o que parece digital nasce do mundo real. Para o novo capítulo da saga criada por James Cameron, Deborah L. Scott concebeu centenas de peças fisicamente, antes que elas fossem transformadas em efeitos visuais em “Avatar: Fogo e Cinzas”. Cada traje foi desenhado à mão e pensado como objeto real, com textura, peso e estrutura. A construção visual também passa pela cor. Diferentes comunidades do planeta são identificadas por paletas específicas — alguns povos se aproximam de tons quentes e terrosos, enquanto outros permanecem nas variações do azul. A estratégia cria um mapa visual imediato entre territórios e culturas. Deborah, que venceu o Oscar por “Titanic”, traz para o universo de Avatar a experiência de uma carreira brilhante que inclui clássicos como “E.T. – O Extraterrestre”, “De Volta para o Futuro” e “Minority Report”. Prova de que, mesmo em um mundo dominado pela tecnologia, o figurino continua nascendo do gesto artesanal.

Frankenstein
Parceira frequente do diretor Guillermo del Toro, Kate Hawley tratou o figurino de “Frankenstein” quase como uma pintura em movimento. Em vez de seguir a estética sombria tradicional associada à história, ela construiu uma paleta emocional, marcada por cores profundas e simbólicas. Vermelhos intensos, verdes luminosos e azuis densos atravessam o filme e refletem os estados internos dos personagens. Há também pequenos elementos cromáticos que se repetem e conectam figuras da narrativa, criando um diálogo silencioso entre elas. Os tecidos foram desenvolvidos com inspiração em estruturas naturais — superfícies minerais, asas de insetos e padrões orgânicos. A criatura, por sua vez, tem um figurino que evolui ao longo da trama, acompanhando sua própria transformação física e emocional.

Hamnet
Em “Hamnet”, ambientado na Inglaterra elisabetana, Malgosia Turzańska decidiu evitar qualquer idealização do passado. Em vez de roupas exuberantes ou impecáveis, o figurino privilegia a materialidade do cotidiano. Linho, lã e algodão dominam as cenas, quase sempre em tons apagados. São roupas práticas, usadas repetidamente, muitas vezes gastas pelo tempo e pelo trabalho. Barras se desgastam, mangas perdem forma, tecidos pesam. Essa repetição, historicamente fiel, reforça a dimensão humana da história. O figurino acompanha a vida diária — e também o luto — sem recorrer ao espetáculo visual. Formada em Praga e com mestrado pela NYU, Turzańska construiu carreira entre cinema e televisão e recebe aqui sua primeira indicação ao Oscar.

Marty Supreme
Se em alguns filmes o figurino revela quem o personagem é, em “Marty Supreme” ele mostra quem o protagonista deseja se tornar. Ambientado na Nova York de 1952, o longa acompanha um vendedor de sapatos que usa a roupa como ferramenta de reinvenção social. Miyako Bellizzi parte da alfaiataria masculina do pós-guerra: ternos amplos, cintura alta, ombros marcados e camisas soltas. O estilo, inspirado em figuras do submundo nova-iorquino da época, tinha no excesso de tecido um sinal de status. Ao longo da narrativa, o figurino evolui de maneira quase imperceptível. O corte melhora, os materiais ganham qualidade, os acessórios aparecem com mais intenção. A transformação acontece em pequenas etapas — exatamente como a ascensão do personagem. Bellizzi, cuja trajetória inclui colaborações com Josh Safdie em “Good equipe” e “Joias Brutas”, conquista com o filme sua primeira indicação à estatueta.
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