Adianta matar líderes xiitas que cultivam o martírio, como os iranianos?



Jornalistas ocidentais gostavam de Ali Larijani porque ele falava bem inglês, tinha estudado ciências da computação e filosofia e escrito um livro sobre Kant. Parecia alguém com quem podiam conversar e até relevar o fato de que era também sanguinário e fanático, responsável por milhares de mortes de seu próprio povo. Se foi lícito ou não matá-lo, juntamente com o filho e mais um punhado de assessores e seguranças, como se viu ontem no enterro, envolve questões éticas e legais transcendentais. Mas implica também numa pergunta de ordem mais utilitarista: adianta matar líderes identificados com um ramo da religião muçulmana que, tendo sido minoritário e perseguido ao longo dos séculos, não só cultiva o martírio como o considera uma forma desejável de apressar o fim do mundo, tal como o entendem os xiitas?

Israel, obviamente, não tem esses dilemas. Poucas horas antes de Larijani ser enterrado, aumentou a lista dos chefões eliminados com Ismail Khatib, o ministro responsável por todas as operações de inteligência, no Irã e no exterior.

Não que os líderes israelenses desconheçam os meandros do radicalismo xiita, com o qual lidam diretamente há décadas no Líbano do Hezbollah. Nem que ignorem a hipótese de que a sucessiva eliminação de grandes nomes do regime, iniciada com a do líder máximo, Ali Khamenei, em 28 de fevereiro, pode promover substitutos mais radicais ainda.

Dessa vez, Israel resolveu correr esse risco. Os resultados ainda não podem ser cravados, apesar da extensa destruição infligida às estruturas de ataque e defesa do Irã e à dizimação de suas lideranças, na casa de vários milhares, ambos os processos ainda em andamento. O próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deixou entrever o objetivo: “criar as condições” para que o povo iraniano mude o destino do país, desafiando a capacidade de repressão do regime, ainda forte o suficiente para manter os protagonistas dos protestos do começo do ano trancados em casa, apenas soltando gritos de alegria quando um de seus algozes é atingido, como aconteceu no caso dos “dois Alis”, Larijani e o próprio Khamenei.

A VIRTUDE DO SOFRIMENTO

Os nomes não são coincidência: louvam a figura mais fundamental do xiismo, Ali, primo e genro de Maomé. Ele e seus filhos, Hussein e Hassan, foram mortos nas disputas internas pelo poder posteriores à morte do profeta, no século VII da nossa era. Em resumo, as figuras mais veneradas do xiismo, as quais todos querem emular, foram mártires – não como os santos originais do cristianismo, que aceitavam resignadamente a própria morte, mas combatentes, tombados de espada na mão.

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“A história subsequente das várias seitas xiitas foi de perseguição, exílio e morte nas mãos de qualquer que fosse o grupo dominante na época. Isso se transformou num entranhado entendimento da virtude de sofrer por suas crenças, inexistente em versões mais triunfalistas do Islã”, escreveu no Telegraph o acadêmico paquistanês Michael Nazir-Ali.

O autor de uma perspectiva única para o entendimento de questões religiosas: é cristão, originário de um país esmagadoramente muçulmano, com uma grande minoria xiita. De bispo da Igreja Anglicana, transitou para o catolicismo, foi recebido como sacerdote e hoje dirige um centro de estudos em Oxford.

A corrente xiita dominante no Irã também cultiva uma visão escatológica, ou seja, referente à teologia do fim do mundo. Acredita que o último dos doze líderes religiosos enviados ao mundo, chamado de Mahdi, está oculto desde seu “desaparecimento”, no ano 874. Reemergerá como uma espécie de messias muçulmano, quando o mundo inteiro será convertido à religião e governado por seus 313 generais.

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Alguns xiitas dessa corrente acham até que o retorno do Mahdi deve ser apressado e quanto mais conflitos houver, melhor, pois antecipam a batalha do fim do mundo. São chamados de “apressacionistas”. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad era dessa linha e chegava a deixar um lugar desocupado na mesa para o caso do Mahdi, de repente, aparecer. Israel apressou sua ida ao encontro das 72 virgens de pele translúcida prometidas aos mártires, ou shahids.

COMPLEXO DE MARTÍRIO

Kant, objeto dos estudos de Ali Larijani, que na prática era o principal executivo do regime, definitivamente não combina com visões desse tipo, mas é ela que predomina no Irã.

“O que o Ocidente e seus aliados precisam compreender é que a retórica procedente de Teerã é influenciada pelo complexo de martírio. Não é um blefe ou uma posição desafiadora, mas profundamente enraizada na psicologia xiita, entendida à luz das circunstâncias contemporâneas”, escreveu Nazir-Ali.

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“Se o regime vier a cair, seja em consequência da guerra aérea ou das ‘botas no chão’, os revolucionários islamistas já têm pronta uma resistência infinita ao que quer que seja que tome seu lugar”.

Alguma perspectiva menos pessimista?

afirmou o especialista paquistanês radicado na Inglaterra: “Existe um grande número de pessoas no Irã – estudantes, mulheres, minorias, acadêmicos e até elementos da classe comercial – que desejarão cooperar na emergência de um novo Irã. Ela terá que ser ancorada na antiga civilização do Irã, da qual tirará inspiração para a tarefa urgente de reconstrução quando os aiatolás caírem”.

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Obviamente, se caírem.

Mesmo intimidada e sem condições de sair às ruas, a população que execra o regime está procurando fazer a sua parte. Foi por uma pista dada por um iraniano anônimo que Israel soube onde se escondia – numa barraca, numa área cheia de árvores, tentando enganar os mísseis – o chefe da milícia Bassij, Gholamreza Suleimani, responsável direto pela pior parte dos massacres dos manifestantes no começo do ano. A informação consta de uma reportagem espetacular do Wall Street Journal sobre como os líderes iranianos estão sendo eliminados sistematicamente, inclusive nos centros esportivos e estádios onde integrantes do segundo escalão se esconderam depois dos ataques iniciais seguindo um plano previamente concebido. Em uma semana, estavam todos mortos.

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