Carne bovina ganha protagonismo dentro e fora do país com China e efeito Ozempic



A carne bovina brasileira vive um momento de protagonismo, tanto dentro do país quanto no comércio internacional. O abate de bovinos cresceu 13,1% no quarto trimestre de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo os Primeiros Resultados das Pesquisas Trimestrais da Pecuária, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Com esse avanço, as estimativas apontam que o total de abates no ano de 2025 deve ficar entre 42,3 milhões e 42,6 milhões de cabeças, um recorde para o setor.

Esse aumento não ocorre por acaso. A demanda global por proteínas vem crescendo, impulsionada por mudanças nos hábitos alimentares e por tendências de consumo associadas a dietas mais ricas em proteína. De acordo com levantamento da Mintel, houve um aumento de 70% nos lançamentos globais de produtos com apelo de alto teor de proteína entre 2014 a 2023. E, segunda pesquisa da empresa de suplementos Vhita, 50% dos brasileiros pretendem aumentar a ingestão de proteínas em 2026.

A China também desempenha papel decisivo nesse crescimento, tanto pelo tamanho do seu mercado quanto pela necessidade de importar alimentos para atender a população.

A combinação entre aumento da oferta no mercado doméstico e forte apetite externo, ajudou o país a superar os Estados Unidos como maior produtor mundial de carne bovina voltada ao mercado internacional.

Com mais produção disponível, o principal canal de escoamento naturalmente passa a ser o mercado externo. O Brasil embarcou 3,1 milhões de toneladas de carne bovina em 2025, gerando 16,6 bilhões de dólares em receita, alta de 42,5% em relação ao ano anterior, segundo a plataforma Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A China respondeu por 50,3% desse total, se consolidando como o principal destino da proteína brasileira.

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A demanda segue aquecida neste ano. Em janeiro, o país exportou cerca de 231,8 mil toneladas de carne bovina fresca, com receita próxima de 1,3 bilhão de dólares, avanço de 42,5% frente ao mesmo mês de 2025. O resultado foi puxado tanto pelo aumento dos embarques quanto por preços 10,7% mais altos. Sozinha, a China respondeu por aproximadamente 650 milhões de dólares em compras, quase 45% acima do registrado um ano antes.

Mas o cenário também traz preocupação. Quanto mais o setor avança apoiado em um único mercado, maior a exposição a mudanças de política comercial. Pequim introduziu cotas máximas anuais de importação para fornecedores estrangeiros ao longo dos próximos três anos. Qualquer volume acima do limite poderá sofrer uma sobretaxa de 55%, um mecanismo que, na prática, pode limitar a expansão das vendas brasileiras.

O desafio da pecuária brasileira passa a ser menos sobre produzir e mais sobre gerir riscos. A produção continua avançando e a capacidade exportadora segue elevada. O equilíbrio entre oferta crescente e demanda externa dependerá, cada vez mais, da diversificação de mercados e do aumento do valor agregado dos produtos exportados.

Se a demanda chinesa desacelerar justamente quando a produção estiver no pico, o setor poderá enfrentar um ajuste inevitável. Por enquanto, porém, a fotografia é de força: recorde de abates no campo e recorde de exportações nos portos. A questão que começa a se impor não é se o Brasil continuará relevante no mercado global de carne. Isso já parece consolidado, mas se conseguirá transformar o atual boom em uma trajetória sustentável, menos dependente de um único comprador.

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